Achava que te amava, até que me conheci
Perdi as contas de quantas vezes li essa frase pichada em um muro. Sempre que via, estava sentada no ônibus, com meus fones de ouvidos, perdida em pensamento, e essa frase sempre me trazia para o presente como um puxão, de tão forte que ela tocava em mim. No entanto, ela nunca fez mais sentido do que no momento atual da minha vida, meu momento presente. Sempre que era puxada de volta a realidade ao lê-la, pensava no dia em que me amaria o suficiente para dar significado a minha vida, então esse momento chegou, o momento presente onde o amor próprio cresce em escalas nunca antes vistas. Foi então que li novamente a frase e ela teve um novo significado, como se eu jamais tivesse lido essa frase antes, algo novo estava acontecendo.
Difícil explicar sentimentos com palavras, mas eu senti a frase, ela correu por todo meu corpo, arrepiando meus pelos e aquecendo minha alma, eu estava sentindo a emoção de quem escreveu aquilo, eu estava vivendo aquela frase - não, eu estou vivendo essa frase.
É louco pensar como coisas que sempre estiveram sob nossos olhos passam a realmente existir quando verdadeiramente olhamos para elas, quando passamos a ter olhos de ver. Coisas que sempre estiveram lá, como uma frase, um sentimento, um corpo. Eu sempre estive lá, meu corpo sempre esteve lá, no reflexo do espelho, no toque sem querer, na olhada rápida no vidro dos carros. A minha imagem sempre esteve diante dos meus olhos, mas só quando eu olhei em direção a ela é que a pude ver, límpida, cristalina, brilhante e atrativa. Foi como se um céu carregado de nuvens cinzas se abrisse e, dele descessem luminosos raios de sol iluminando somente a mim, me deixando em primeiro plano, para que meus olhos pudessem ver com clareza e alegria a imagem que eu projetava.
Hoje quando olho no espelho eu me vejo e, mais que isso, faço questão de me ver. Paro por alguns segundos e me olho nos olhos, sorrio, digo "eu te vejo" para que eu saiba da minha presença. Pode parecer sem sentido, mas nós não nos damos conta do tempo em que não estamos presentes em nossa vida, do tanto de tempo em que estamos no "piloto-automático" e nossa imagem passa despercebida por nós mesmos. A preocupação excessiva de como o outro vai nos ver, se torna maior, porém e a forma como nos vemos? Se é que realmente estamos nos vendo, se é que nos conhecemos.
Há uma significância sem tamanho em se olhar e estar realmente se vendo, mostrar a si próprio que está consciente da sua existência é dizer para seu corpo "Eu estou aqui, eu te vejo e vou cuidar de você" e isso não acontece de um momento para outro, é um caminhada a ser trilhada com persistência e amor, até o momento em que pudermos dizer que nos conhecemos ao ponto de que nos amamos, de uma forma pura e livre de julgamentos, pois é só disso que precisamos, amor e nada mais.
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